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Píramos e Tisbe

              A antiga lenda romana de Píramo e Tisbe, para muitos literários, é a origem da notável obra Romeu e Julieta de William Shakespeare.

Viviam outrora na Babilônia dois amantes, Píramo e Tisbe. Embora morassem em casas contíguas, a severa vigilância paterna os mantinha afastados um do outro. Não se lhes concedia oportunidade alguma de encontrar-se e eles se viam reduzidos a sussurrar protestos mútuos de amor através de fisga existente na parede que separava as duas casas.

Numa dessas ocasiões, entretanto, combinaram avistar-se à noite, escolhendo por ponto de encontro o túmulo de Nino, fora dos limites da cidade, debaixo de uma amoreira de frutos brancos, que crescia ao pé de uma fonte. Enquanto as respectivas famílias e seus criados dormiam, os dois jovens esgueiraram-se para fora de suas casas. Era uma noite tranqüila, enluarada. Tisbe chegou primeiro ao local aprazado e sentou-se debaixo da árvore para esperar. De repente, avistou uma leoa, com as fauces ainda tintas do sangue da última presa, que se aproximava da fonte para dessedentar-se. A moça, aterrorizada, ergueu-se num prisco e correu, buscando refúgio numa gruta vizinha mas, na pressa, deixou cair o manto. Quando a leoa voltou à floresta, depois de haver bebido, deu com o manto da jovem e rasgou-o com as garras, e um pouco de sangue caiu sobre o tecido.

Chegando pouco depois, Píramo ficou aterrorizado ao dar com as pegadas do animal e descobrir o manto de Tisbe manchado de sangue. Acreditando que ela tivesse sido estraçalhada pela leoa, resolveu matar-se sem perda de um momento. Ensopando o manto com suas lágrimas, sacou da espada e acutilou-se, caindo aos pés da amoreira. Ao arrancar a lâmina da ferida, o sangue esguichou, manchando os frutos brancos da árvore e tingindo-os de um vermelho vivo.

Tisbe voltou ao sítio fatídico quando Píramo agonizava. Não reconheceu de pronto a árvore cujos frutos, pouco antes, alvejavam ao luar. Depois viu o amante no chão e, aconchegando-o de si, murmurou-lhe suavemente o nome. Por um breve instante ele abriu os olhos, mas logo descaiu, morto, para trás. Em seu desespero, Tisbe agarrou a espada suja de sangue que jazia ao seu lado e, sem hesitar, enterrou-a no coração. Os corpos dos jovens amantes foram encontrados lado a lado ao amanhecer. De acordo com a última oração de Tisbe murmurada aos deuses, as cinzas dos dois foram colocadas, pelos pais desconsolados, na mesma urna. Desde o dia da tragédia, o fruto da amoreira nunca mais deixou de ser vermelho, da cor do sangue.

GILBERT, John. Mitos e Lendas da Roma Antiga. Edições Melhoramentos - Editora da Universidade de São Paulo.