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A Medicina Romana

O receituário primitivo dos romanos fez largo uso de ervas (a medicina era uma verdadeira scientia herbarum) de mistura de inúmeras práticas e fórmulas supersticiosas.

O ensino da Medicina. - Os conhecimentos médicos dos egípcios conservaram, na época romana, seu milenar prestígio. Alexandria era grande centro de medicina e os que lá haviam estudado gozavam de prestígio. Na cidade fundada por Alexandre estudava-se Anatomia por meio de dissecação de cadáveres. Tertuliano e S. Agostinho, apoiados no testemunho de Celso, acusaram a escola de Alexandria de prática de vivisseção em criaturas humanas.

Em Roma, entre os professores de medicina dignos de nota, figura o grego Asclepíades, que fundou, na capital, uma escola de medicina. Asclepíades criticava os que, baseados em Hipócrates, confiavam na "vis medicatrix nature" (força curativa da natureza), e acentuava a necessidade de medidas atuantes para que o processo curativo se desenvolvesse cito, tuto, iucunde (com rapidez, com segurança e favoravelmente). As escolas eram constituídas, primitivamente, pelo mestre, e os discípulos que o cercavam e o acompanhavam nas visitas aos enfermos. Os imperadores foram, cada vez mais, demonstrando interesse pelos ensinos médicos e fizeram construir salas especiais (auditoria).

Literatura Médica. - Passemos a anotar alguns nomes de famosos médicos e autores de obras de medicina da Antigüidade Romana.

§ Celso (ou Aurelius Cornelius Celsus), autor da obra De re medica, escrita pelo ano 30 de nossa Era. Seu tratado está dividido em oito livros e abrange os seguintes assuntos: História da Medicina, dietas, princípios gerais da terapêutica e de patologia, enfermidades internas, externas e cirurgia. Celso menciona as operações de cirurgia plástica no rosto e na boca, bem como a extirpação de cálculos, e focaliza até a extração de dentes. Foi o primeiro a usar termos como cardiacus e insania. Descreve o processo inflamatório: "rubor et tumor, cum calore et dolore" (vermelhidão e inchação, com calor e dor).

§ Scribonius Largus, médico da imperatriz Messalina, escreveu a De Compositione Medicamentorum (Sobre a composição dos remédios).

§ Rufus de Éfeso exerceu sua profissão em Roma na época de Trajano e deixou dezenas de obras, das quais poucas e incompletas chegaram até nós. Rufus fez interessantes descrições de dissecação; é notável seu estudo sobre anatomia do olho. Distinguiu entre nervos motores e sensoriais e estudou, com precisão, entre outras doenças, a lepra e a peste bubônica.

§ Soranus de Éfeso, contemporâneo de Rufus, foi o maior ginecologista da Antigüidade. Deixou cerca de trinta obras sobre os mais diversos temas. No século passado foi encontrada a mais famosa de suas obras "Sobre as doenças de mulheres".

§ Aretaeus de Capadócia deixou-nos tratados sobre doenças agudas e crônicas. Nenhum autor médico supera Arataeus na viva descrição da doença.

§ Galeno figura, ao lado de Hipócrates, como um dos mais brilhantes vultos da Medicina Antiga. Nascido em Pérgamo estabeleceu-se em 161 em Roma onde adquiriu fama, muitas amizades e inimizades, pois denunciou a ignorância de muitos médicos da Capital. Os tratos de medicina de Galeno abrangem: introdução à medicina; comentários a Hipócrates; estudos de anatomia e fisiologia; estudos de etiologia e de diagnóstico; estudo de higiene, dietética, farmacologia e terapêutica.

A Profissão: Médico - Havia em Roma diversas especialidades distintas a que se dedicavam os médicos.

§ Clinici (clínicos) tratavam doenças internas. Os clínicos ilustres chegavam junto ao enfermo levando consigo um séqüito de médicos principiantes; auscultavam, tocavam, observavam e, em virtude do ofício de mestres, faziam auscultar, tocar e observar. Marcial descreve uma dessas cenas: "Estava indisposto; eis que logo Símaco vem visitar-me acompanhado de cem discípulos: tocaram-me cem mãos, cem mãos geladas. Não estava com febre, agora estou".

§ Fannius - laringólogo.

§ Eros - cirurgião estético.

§ Alcon - operador de hérnias e de fraturas.

§ Medici oculari - Oculistas que tratavam das doenças dos olhos, mas não podiam receitar óculos, pois os mesmos constituem uma invenção bem posterior.

Remédios e Instrumentos - Desde épocas remotas, o paterfamilias romano costumava preparar os remédios caseiros para os doentes de sua família. Como em Roma não houvesse farmácias, cabia aos médicos o preparo de suas receitas. É interessante observar que, nesse ponto, gozavam os profissionais de grande liberdade.

Medicamentos empregados:

§ Ervas, raízes, ungüentos, emplastos eram usados e abusados.

§ Laserpicium - Planta medicinal que Plínio chamou de um dos maiores dons da natureza. O suco da raiz do laserpício era sobremaneira apreciado e tinha múltipla aplicação nas convalescenças, nos estados de prostração, nas digestões difíceis, nos distúrbios circulatórios e nas doenças das mulheres. Era empregado para curar feridas e chagas e para amadurecer os obsessos. Curava a dor de garganta, asma e mil e uma outras moléstias. Servia também como antídoto contra mordeduras de cobras e picadas de escorpiões. O laserpício apenas se revelava impotente contra dores de dente. Nesses casos dolorosos aconselhava-se a polpa da abóbora com absinto e sal.

§ Para a boa conservação dos dentes: Lavar a boca com sangue de tartaruga três vezes ao ano ou dissolver sal sob a língua pela manhã em jejum.

§ Contra as devastações da calvície: Infusão de vinho, açafrão, pimenta, laserpício e excremento de rato.

§ As enfermidades dos olhos eram tratadas com colírios preparados com substâncias vegetais como resina de mirra, açafrão e pós minerais.

Instrumentos cirúrgicos: bisturis, sondas, pinças, fórceps, agulhas, ventosas entre outros instrumentos cirúrgicos de ferro e de bronze. Alguns desses instrumentos são comparáveis, pela perfeição com que foram fabricados, aos congêneres modernos.

Assistência Médica Oficial: Higiene - Na época imperial, o Estado organizou um serviço de médicos públicos. Archiatri (designação dos médicos públicos) foram nomeados para diferentes cidades e instituições. As cidades menores podiam ter cinco médicos públicos, os quais estavam isentos de impostos. As cidades mais importantes podiam ter sete, as cidades ainda mais importantes podiam ter dez. Era natural que o maior número de médicos fosse permitido para as cidades capitais, devido à importância, para essas que possuíam um tribunal de justiça. Os archiatri tinham a obrigação principal atender aos pobres e gozavam de elevada consideração.

Os romanos deram grande atenção aos problemas de saneamentos e higiene. Desde a época dos Tarquínios, Roma possuía cloacas. A Lei das XII Tábuas proibia os enterros dentro recinto das cidades. Os quatorze grandes aquedutos, que abasteciam a capital com abundante água são a prova eloqüente da preocupação dos governantes pela limpeza. Podemos fazer uma idéia da história e da construção desses aquedutos pela obra.