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O Forum

          A tarde, ao avançar das horas, carrega o tom sombrio às cores, alastra e funde-as todas numa tinta desolada; cava-se mais o vale escuro; e o abismo entra a exalar memórias. Pouco a pouco, trechos da velha história sacodem-nos do torpor contemplativo.Forum Romano - Mérida/Espanha A cidade levanta-se como outrora, desestratifica as camadas de tempo e gerações, povoa-se da vida antiga. Ali, a Via Sacra, aos nossos pés, anima-se da multidão dos grandes dias. O povo junto dos rostos comprime-se de novo para ouvir os oradores. Um tribuno subiu ao podium do templo de Castor e Pólux e, entre as altas e gracílimas colunas coríntias dum tão puro aticismo, dir-se-ia que o seu vulto e as suas palavras respiram mais nobreza.
          Depois, precisam-se as figuras. Ali no recinto do Templo da Concórdia, Cícero, terrível como Jove, troveja de novo o seu Quousque tandem...
          Além, sobre a tribuna do templo de Júlio César, Antônio avança, de toga ao vento, e, arrebatando o manto de sob o cadáver do ditador, aponta as feridas sangrentas à populaça, que ulula de furor.
          Mais para além, sob o elegante e sóbrio arco de Tito, o imperador magnífico passa, na pompa triunfal com os judeus acorrentados, direito ao Capitólio.
          Então, uma vertigem toma-nos o espírito, e leva-nos entre a cauda dos cortejos, mistura-nos à plebe que escuta os oradores, senta-nos nalgumas das suas basílicas entre os centúnviros ou os senadores e, regressados àqueles velhos templos, decidimos também, orgulhosos e feros, nos solenes concílios, os destinos do mundo.

Jaime Cortesão, Itália Azul